Reportagens, SBPC 2017

Mulheres na ciência

Um dos temas discutidos na 69ª Reunião da SBPC foi a equidade de gênero na ciência, principalmente na mesa-redonda “Mulheres e Sociedade”. Mas porque estudar e discutir gênero e ciência? Porque isso é relevante?

Primeiro porque é uma questão de direito. As mulheres são parte da sociedade e tem direito a ter uma igualdade de participação no sistema de ciência e tecnologia de seus países. Segundo porque o país perde. No Brasil, por exemplo, as mulheres representam cerca de 51,6% da população, ou seja, a exclusão das mulheres da ciência implica na perda de metade da capacidade produtiva e de desenvolvimento da ciência no país.

Terceiro por questões sociais. As mulheres desenvolvem papéis e atividades diferenciados dos homens de maneira geral e é importante que se tenha uma perspectiva dos dois sexos. Alice Rangel de Paiva Abreu (UFRJ), presente na mesa “Mulheres e Sociedade” afirma que a “ciência com mais mulheres é uma ciência melhor. Os cientistas arregalam um pouco os olhos quando eu digo isso, evidentemente não é porque as mulheres são intrinsecamente melhores pesquisadoras que os homens, mas a questão da diversidade e da pluralidade é uma questão que influencia também a ciência. Você ter mais cabeças pensando de forma diferente traz de fato resultados melhores.”

A professora Marcia Cristina Bernardes Barbosa (UFRGS), também presente na mesa, apontou alguns mitos sobre a escassez das mulheres na ciência que dificultam a discussão e causam essa barreira da entrada e a dificuldade de permanência. Primeiro ela fala em estereótipos. O estereótipo do cientista é aquele do louco, cabelos em pé, de jaleco, óculos enormes… e homem. É assim representado por filmes, novelas, séries, livros, propagandas, etc, e nós assim internalizamos. E quando, raras vezes, é uma cientista mulher, é aquela figura solitária, descuidada, masculinizada. Ela aponta também a pré definição de papéis dos sexos imposta pela sociedade: os homens são inteligentes, chefes, proprietários; as mulheres são agradáveis, benevolentes, mediadoras de conflito. “Nós estamos condenando as nossas crianças para que os meninos sejam inteligentes e as meninas sejam simpáticas. Teremos meninos inteligentes antipáticos e meninas simpáticas burras”, afirma a professora.

Outro mito é o de que a mulher não quer ir para a ciência. A professora Marcia contou a história de Hipátiade Alexandria, uma das primeiras pessoas a dizer que as órbitas eram elípticas (o que causava uma quebra religiosa fundamental). O governo quis obrigá-la a abandonar suas pesquisas e negar suas descobertas e ela foi morta por não negar o que ela acreditava, por não negar seu direito de fazer ciência, e esse é apenas um dos muitos exemplos de mulheres que enfrentaram governos e morreram pelo mesmo motivo. A professora ilustrou com esse exemplo, o fato de não ser as mulheres que não querem ir para a ciência, é a ciência que nega a presença da mulher. Quando ela tenta entrar, é barrada, sua permanência é dificultada e sua autoridade é negada. E isso vem acontecendo há muito tempo.

E assim, com a junção de diversos fatores, a ausência das mulheres na ciência é perpetuada. É um “ciclo vicioso”, elas não conseguem acesso, os colegas homens ocupam cargos superiores na hierarquia veem que não há muitas mulheres e por consequência não escolhem bolsistas mulheres, as mulheres que ainda não entraram também não querem seguir esse caminho pois não há modelos de sucesso conhecidos. Esse preconceito é perpetuado pelo sistema e, segundo a professora Marcia, “a única maneira de destrancar o que você aprendeu do sistema é ação afirmativa, é contar pra eles: você vai ter também que escolher mulher”.

A pesquisadora Alice Rangel cita Londa Schiebinger, professora de Stanford que dirige um projeto junto com a UE chamado “Gender Inovations”. Schiebinger fala que para se entender a evolução dos estudos de gêneros é preciso ver que se começou pensando em fazer três coisas: consertar os números, consertar as instituições e consertar o conhecimento em si.

Para consertar os números, é preciso que existam pesquisas, indicadores científicos agregados ao sexo. Esta falta de dados resulta na manutenção dos preconceitos sobre a presença da mulher na ciência, tendo em vista que não se tem provas para refutá-los. Isso tem mudado com pesquisas sob a lente de gênero, principalmente na UE, que nos dá uma visão muito clara do que realmente acontece.

O Brasil está em nível excepcional porque é um dos três países onde as mulheres são maioria entre titulados com doutorado. Também são maioria na graduação, tanto em ingresso quanto em permanência. Mas apesar disso há alguns pontos ao longo da carreira cientifica onde a queda no numero de mulheres é relevante: da graduação para o mestrado, depois para o doutorado, e depois na progressão da carreira. A professora Alice Rangel afirma que “quando se olha a hierarquia do sistema, a gente percebe que apesar de um grande número de mulheres na base, à medida em que a hierarquia sobe, elas desaparecem. E isso é muito bem caracterizado quando se vê as bolsas do país”. Pelos dados do CNPq, as mulheres são maioria nas bolsas de amplo aspecto (iniciação cientifica, mestrado e doutorado). Mas quando se olha para as bolsas de pesquisa isso muda. “Eu tenho algumas hipóteses sobre isso. Porque todas as outras bolsas da CAPES e CNPq são distribuídas de maneira descentralizada. São os cursos que escolhem os seus bolsistas através do exame de entrada, as bolsas de iniciação cientifica são os orientadores que escolhem. A bolsa de pesquisa do CNPq, que é a bolsa de maior prestigio, é dada por um comitê nacional centralizado no órgão” afirma Alice.

Então são realmente as mulheres que não são qualificadas? Um argumento muito usado é o de que é questão de tempo para que as mulheres possam se qualificar e começar a ter acesso nesse nível maior da hierarquia, mas segundo pesquisas apresentadas pela Prof. Alice Rangel, isso é um mito. Apesar das mulheres terem uma porcentagem de participação muito grande nas publicações científica, um dos grandes indicadores de excelência da qualificação, o gráfico é uma linha reta, o seu lugar na hierarquia não muda.

Entra aí a questão de se consertar as instituições. Se os números mostram que as mulheres estão qualificadas, então porque não ocupam os lugares que poderiam e deveriam ocupar? Para Alice Rangel, “quanto mais se estuda a questão de gênero e ciência, mais se tem clara noção de que ao longo da carreira científica há vários processos sociais, de incorporação, de redes, de menores salários, de dificuldade em conseguir financiamento, uma série de processos sociais e culturais internos das instituições que baixam as mulheres.”

Sobre consertar o conhecimento em si a pesquisadora lembra que “a pesquisa científica hoje é muito diferente da pesquisa cientifica feita há 50 anos atrás. Ela é mais global, você tem atores novos, você tem desafios científicos muito mais complexos que exigem novos conhecimentos e abordagens, principalmente interdisciplinares”. E como fazer isso? Alice defende a definição de uma agenda de pesquisa onde a participação de homens e mulheres tenha uma equidade real; um processo de avaliação que seja extremamente eficaz; financiamento equilibrado; transparência e responsabilidade nos mecanismos de seleção e promoção com equidade de gênero; e a visibilidade à modelos de sucesso. “É preciso mostrar que existem mulheres qualificadas, que tiveram uma carreira promissora, elas tem que aparecer como visíveis e também continuar essa luta por indicadores e estatísticas confiáveis. Tudo isso sob uma lente de gênero, eu acho que a gente daria alguns passos para tentar resolver alguns dos desafios que ainda temos pela frente” afirma Alice Rangel.

Mas tudo isso precisa ser visto de acordo com a atual conjuntura do país. Simone de Beauvoir disse que “nos momentos de crise são os jovens e mulheres que sofrem as piores perdas”. A professora Estela Maria Motta (UFBA) chamou atenção para a responsabilidade que temos de discutir o tema principalmente “no momento de uma grave crise política no país que tem significado não apenas a ameaça às conquistas que a gente vem obtendo ao longo dos anos, mas a efetiva ação de destruição de muitas das coisas que a gente foi acumulando e que foram insuficientes para o grau de desigualdade sociais que a gente tem no país”. Não existe equidade de gênero sem democracia.

Ligia Matini

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Reportagens, SBPC 2017

Vamos falar de ciência com quem?

Estamos às vésperas da 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um dos maiores eventos científicos da América Latina. Durante os últimos meses, docentes e discentes da UFMG, anfitriã do evento este ano, tiveram suas caixas de emails bombardeadas, o campus se encheu de outdoors, os ônibus foram adesivados e duas estruturas gigantescas foram erguidas em frente a Reitoria. Parece que agora, mais do que nunca, temos infraestrutura suficiente para receber em nossa Universidade, pessoas de todos os cantos para discutir sobre ciência, seus caminhos, suas demandas e seu impacto no cotidiano de toda sociedade.

O que se espera é que cientistas, professores e estudantes de todos os níveis e visitantes, circulem pelo campus durante os sete dias de evento, afinal boa parte das atividades são abertas ao público. Mas o público está sabendo disso?

Não é preciso ir muito longe para descobrir a resposta. Nem mesmo alunos de pós-graduação da universidade, quando questionados pela reportagem, sabiam o que eram os galpões instalados às margens da reitoria. Os emails enviados à comunidade acadêmica não têm despertado muito o interesse. Pouco se sabe sobre o evento entre os discentes. Pessoas que trabalham na Praça de Serviços, em volta da qual serão realizadas diversas atividades da programação, por exemplo, não fazem a menor ideia do que está acontecendo na Universidade, mesmo com toda a divulgação visual dentro do campus.

Com a comunidade externa à universidade não é diferente.Tatiana é analista de sistemas, trabalha em uma empresa a menos de 100 metros de uma das portarias da Universidade e não sabia sobre o evento. “Sou uma pessoa que gosta de estar constantemente estudando sobre o assunto (ciência). Já faz parte da minha vida. Atualmente estou estudando sobre mecânica quântica. Então assim, sou bem curiosa nessa parte”, declarou. Para Tatiana o evento estará incentivando a população a saber mais sobre ciência, mas ela não poderá participar porque o horário do evento coincide com o seu horário de trabalho.

O horário também é um problema para Adilson, mecânico que trabalha ao lado da portaria da Universidade instalada na Avenida Abraão Caram, mas não pode participar de nenhuma das atividades durante o dia. Ele não sabia do evento que está para acontecer na sua vizinha UFMG, mas sabia de eventos relacionados a ciência que aconteceriam no Rio de Janeiro. Para Adilson, a ciência hoje é tudo, para ele a “nossa vida está melhorando graças a ciência”.

A ciência é a roda que move o mundo. Seja no trabalho, na saúde, ou na resolução de pequenos problemas do dia a dia, existe ciência, somos implicadas(os) e impactadas(os) pela ciência. Por isso, a reunião da SBPC deve ser também acessível a um público mais ampliado, diverso e que não transita no ambiente acadêmico.

 

Thacyane Martinelli

Reportagens

Preparar para a produção e divulgação da ciência

Criadas em 2014 com sua primeira oferta em 2015, as Formações Transversais são as novas opções de percursos acadêmicos da UFMG. Em 2017, a modalidade possui cinco áreas: Saberes Tradicionais; Culturas em Movimento e Processos Criativos; Relações Étnico-Raciais: História da África e Cultura AfroBrasileira; Direitos Humanos; Divulgação Científica. A proposta da Formação Transversal é criar uma nova possibilidade de trajetória acadêmica que integre o conteúdo ministrado na sala de aula com suas raízes, trazendo para o aluno além de uma nova perspectiva, um maior respeito e admiração pelo assunto. Os percursos podem ser realizados por qualquer aluno da instituição constituindo um espaço comum de formação dentro da UFMG.

O professor Bernardo Jefferson de Oliveira, professor da disciplina História da Ciência e da Difusão da Cultura Científica da Formação Transversal em Divulgação Científica, nos contou que a turma é composta por alunos dos mais variados cursos, como engenharia, biologia, alunos da pós graduação em história e do mestrado profissional em educação. “A variedade dos alunos é a melhor coisa, por forçar o diálogo entre todos, gerando o desafio de ensinar história da ciência para quem nunca ouviu falar e pra quem já está na pós-graduação dentro da mesma sala de aula. A Formação caminha na direção certa, mas ainda não está perfeita.” declara o professor.

A Formação Transversal em Divulgação Científica tem como objetivo proporcionar aos alunos a aquisição de conhecimentos básicos sobre pesquisa científica em suas mais variadas formas, capacitando-os para explorar e discutir possíveis relações entre ciência, tecnologia e sociedade. O seu “minicurriculo” é constituído por disciplinas como Ciência e Sociedade, História da Ciência e da Difusão da Cultura Científica, Comunicação da Ciência em Museus, Laboratórios e Tópicos que trazem conhecimentos conceituais, fatos e teorias científicas, políticas de C&T,  processo histórico de construção da legitimidade e da autoridade da ciência, e ainda fornece exemplos práticos e concretos de como comunicar a ciência para diversos públicos em diversas situações, sem deixar de lado a complexidade e o desenvolvimento de competências na comunicação de ciências.

Guilherme Ximenes, aluno de graduação em engenharia de sistemas, foi aluno da Formação Transversal em Divulgação Científica em 2016 e nos contou como a formação o ajudou a enxergar a UFMG como um todo que se conecta e se comunica. “Deixei de enxergar a UFMG como prédios isolados. Comecei a entender que o conhecimento gerado dentro do campus pertence a todos nós e a Formação Transversal em Divulgação Científica está acontecendo justamente para possibilitar que a sociedade saiba o que está sendo feito pra ela e com o dinheiro dela, até mesmo porque estamos falando de uma universidade pública.”

De acordo a Pro-reitoria de Graduação da UFMG, cerca de 735 alunos se matricularam nas formações entre 2015 e 2016. “Há bastante feedback positivo, de pessoas que afirmam ser um espaço em que conseguem desenvolver interesses para além da profissão” disse o professor Ricardo Takahashi, pró-reitor de graduação que ainda adiantou que duas novas Formações Transversais se iniciarão em 2017/02: a Formação Transversal em Empreendedorismo e Inovação e a Formação Transversal em Gênero e Sexualidade: perspectiva Queer / LGBTI.

 

Thacyane Martinelli

Projetos, Reportagens

RBEB – Objetos de aprendizagem

O que são Objetos de aprendizagem? Convidamos os professores Claúdia FrançaBráulio Silva do CEFET-MG para refletirem sobre as potencialidades desses objetos e de sua ação no Projeto “Sociologia, Filosofia e Artes” (SoFiA)
Reportagens

BBC Brasil – ‘Selfie acadêmica’: Os pesquisadores que usam a si mesmos como base de estudos

 

Estaria a cultura do selfie – a cultura do “eu” – se alastrando pelo campo das pesquisas acadêmicas? E seria essa uma forma válida de usarmos nossa experiência pessoal como base para estudos científicos?

Esse método de pesquisa foi apelidado de mesearch (forma híbrida que une as palavras inglesas me e research, em português, “eu” e “pesquisa”). Cada vez mais popular internacionalmente, ele desperta opiniões fortes no mundo acadêmico.

Em mesearch – chamada, em círculos científicos, de autoetnografia – o pesquisador usa sua experiência pessoal para resolver questões acadêmicas.

Críticos dizem que o método não é científico e o qualificam de “narcisismo acadêmico”.

Afirmam também que ele é parte de um fenômeno muito novo – um jeito um pouco mais sofisticado de tirarmos uma selfie, assistirmos reality shows ou postarmos nossas ideias na redes sociais.

Críticas à parte, a autoetnografia está sendo usada em vários campos científicos, como a Sociologia, Educação e Psicologia. Estudos assim vêm sendo publicados em revistas científicas sérias e o método está sendo ensinado em universidades americanas.

Espelho

O termo autoetnografia data da década de 1970.

Um dos primeiros estudos baseados no método analisou o tratamento de um bloqueio mental que impedia o autor do estudo de escrever – o fato de o artigo ter sido publicado indica que o acadêmico conseguiu superar o problema.

Enquanto a maioria das pesquisas qualitativas se baseia em entrevistas com um número pequeno de pessoas, estudos autoetnográficos usam a experiência e os sentimentos do autor da pesquisa como ponto de partida para a compreensão de questões mais amplas.

Artigos autoetnográficos são, com frequência, escritos na forma de histórias – deixando de lado a linguagem acadêmica, mais precisa.

Foto: Getty Images | Críticos dizem que o método apelidado de mesearch não é científico e o qualificam de “narcisismo acadêmico”

Isso representa uma ruptura com o método científico tradicional, que exige que acadêmicos sejam objetivos e estejam distantes dos temas que investigam, e que baseiem suas teorias em dados e experimentos que possam ser testados, verificados e reproduzidos.

Portanto, não é de se surpreender que muitos acadêmicos desconfiem da nova tendência. O próprio apelido, mesearch, é usado de forma pejorativa, para desacreditar o método.

O professor de filosofia Vincent F. Hendricks, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, por exemplo, diz que a autoetnografia não cumpre os pré-requisitos necessários para que seja aceita como ciência.

Para ele, estudos autoetnográficos não atendem a uma série de condições que garantem confiabilidade a investigações científicas, entre elas, a possibilidade de ser testados ou previstos, de ser representativos ou permitir extrapolações.

Pluralidade de vozes

Acadêmicos que desaprovam o novo método vêm usando o Twitter para expor o que consideram ser os exemplos mais narcisistas de estudos baseados na autoetnografia.

Entre eles, está um pesquisador que usou sua experiência ao aprender a soprar vidro para estudar a coordenação entre mão e olho. Outro alvo dos céticos foi um acadêmico que descreveu como uma caminhada nas montanhas o ajudou a desenvolver seu senso de identidade.

Outro autoetnógrafo descreveu, recentemente, como a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas tirou-lhe a capacidade de dormir.

Os três estudos citados foram publicados em revistas científicas cujos artigos são revisados e aprovados por outros cientistas.

Uma das sumidades mundiais em autoetnografia, a professora Carolyn Ellis, da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos, rejeita as acusações de “narcisismo”.

“É narcisista deixar sua experiência pessoal de fora e agir como alguém que sabe tudo, como se fosse possível você se distanciar, e como se você não estivesse sujeito às mesmas forças que (agem sobre) aqueles sobre quem você escreve”, diz Ellis.

“É narcisista pensar que ‘nós’ acadêmicos deveríamos escrever apenas sobre ‘eles’ e não sujeitarmos nós próprios ao mesmo escrutínio.”

A acadêmica diz que a autoetnografia deu voz a pessoas da classe trabalhadora e minorias étnicas. Pessoas “que não teriam escrito na tradicional prosa das ciências sociais”.

Relatos em primeira mão

Ellis argumenta ainda que a abordagem autoetnográfica pode permitir insights que não seriam possíveis com o uso de métodos tradicionais de pesquisa.

Por exemplo, ela questiona teorias a respeito de estigmas associados a certos traços físicos oferecendo um relato honesto e pessoal onde explica por que nunca gostou de ter a língua presa.

Ellis diz também que o treinamento em autoetnografia pode contribuir para a formação de professores melhores.

Ela conta que compartilhar suas histórias com a classe “gera uma atmosfera positiva no curso”, incentivando estudantes a falar sobre “as questões que os preocupam e interessam”.

Foto: Getty Images | Muitos veem autoetnografia como um culto do ‘eu’

Outros defensores do método dizem que ele permite que pessoas compartilhem experiências de forma mais profunda e analisem seu significado.

Jill Bolte Taylor, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, fez relatos em primeira mão sobre o funcionamento do cérebro e o processo de reabilitação do órgão enquanto se recuperava de um acidente vascular cerebral.

Segundo ela, assistir à deterioração do seu cérebro deu a ela “uma compreensão do cérebro que o mundo acadêmico não daria”. Ela escreveu um livro sobre o tema, My Stroke of Insight.

Poderiam a revelação sobre a teoria da gravidado físico Isaac Newton (ocorrida após uma maçã cair sobre a cabeça dele) e a observação do filósofo e matemático René Descartes, “Penso, logo, existo” ser exemplos de autoetnografia?

“Você teria de perguntar a eles, mas não tenho problemas em chamar essas observações de autoetnográficas”, diz Ellis.

‘Narcisistas’

A revista científica The Journal of Loss and Trauma já publicou quase cem estudos autoetnográficos e seu editor, John Harvey, diz que a técnica pode ser útil para estudos aprofundados sobre acontecimentos traumáticos.

Ele faz, no entanto, uma ressalva. Autores de estudos autoetnográficos com frequência têm dificuldade em demonstrar o que a história de uma pessoa pode representar para a experiência de um grupo mais amplo.

Ainda assim, a popularidade do método continua a crescer – com mais e mais revistas publicando artigos e universidades oferecendo cursos sobre o tema.

Eventos, Reportagens

Pint of Science 2017

A informalidade e a descontração são pontos-chave para o Pint of Science.

Thayse Menezes

Yolanda Assunção

Durante esta semana, cientistas do mundo inteiro saíram de seus gabinetes, salas de estudo, arquivos e laboratórios para conversar sobre ciência. O festival Pint of Science tem a intenção de ampliar as possibilidades de divulgação científica levando a discussão para bares.

O festival, em sua segunda edição em Belo Horizonte, reuniu público interessado e pesquisadores segunda, terça e quarta feira em 5 diferentes bares da cidade. A iniciativa é realizada na capital mineira pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes), em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). O sucesso de 2016 foi o indicativo para uma nova edição. Segundo Vanessa Fagundes, Coordenadora da Assessoria de Comunicação Social da FAPEMIG “no ano passado tivemos a primeira edição em Belo Horizonte e a resposta do público foi muito grande. Foi um indicativo de que as pessoas estão interessadas, querem saber sobre ciência, e se esses pesquisadores vêm para um lugar descontraído como os bares, o resultado é melhor ainda.”

Ciborgues, a ciência da cerveja, Reforma do Ensino Médio, o futuro da mineração e o falar mineiro foram alguns dos temas deste ano. Segundo Vanessa Fagundes, a pluralidade de temas também é característica da programação “nossa proposta quando pensamos nos temas foram justamente privilegiar todas as áreas do conhecimento.”

Cada encontro levou dois pesquisadores do tema discutido para o bar. Os cientistas apresentaram pesquisas recentes a respeito de questões que fazem parte do dia a dia de todo brasileiro. Para o presidente da FAPEMIG, o professor Evaldo Vilela, o espaço descontraído ajuda a “desconstruir o estereótipo do pesquisador que vive isolado no laboratório além de aproximar a ciência das pessoas.”

Tão diversificada quanto a programação, foi o público dos debates. Estudantes, outros pesquisadores e curiosos se uniram nessas três noites para ao lado dos pesquisadores conhecer e brindar a ciência.