SBPC 2017

Rastros Digitais: passos por uma paisagem desconhecida

Na conferência Rastros Digitais e Vigilância nas Redes apresentada na  69ª Reunião Anual da SBPC , Fernanda Glória Bruno, Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esclareceu sobre a vigilância na internet e o que isso pode implicar na privacidade do indivíduo, mas principalmente o quanto isso tem modelado nossas escolhas inconscientemente.

Hoje a internet é um grande território onde a memória que se constrói é extraordinariamente diversa, complexa e dinamicamente atualizada, isso se deve ao fato de que “toda ação gera um rastro”. Diferente das ações que se dão no ambiente físico e também geram rastros, o ambiente digital tem um comportamento próprio com duração, materialidade e caminhos distintos de recuperação. Podemos deixar rastros conscientes, como no caso de uma publicação, mas inconscientemente também é possível ser rastreado, por exemplo, através da entrada em uma página que nos fornece cookies e pode não associar necessariamente à pessoa que está navegando, mas com certeza ao endereço de IP  da máquina que ela está utilizando.

Todas as ações são decodificadas e armazenadas em bancos de dados que, viram estatística, retornam em forma de personalização dos resultados nossas pesquisas nos buscadores. Significa que ao percorrer páginas, emitir opiniões, interagir das mais variadas formas, imprimimos no nosso rastro uma identidade específica que é o nosso estilo, esse irá ditar as opções mais personalizadas dos resultados para as perguntas que fizermos em seguida.

Existem grupos preocupados com o destino das informações coletadas pelos rastreadores. No aplicativo Trackography é possível mapear dentro da página visitada quantos e quais os rastreadores estão presentes e para onde levam suas informações. O Lightbeam é uma extensão para o navegador criado com apoio da Ford fundation e Emily Carr University of Art + Design com o intuito deixar visível ao internauta os rastros que ele imprime, quem o acompanha e quais rastreadores continuam lhe acompanhando quando muda de página. Essa iniciativa permite resetar ou salvar os dados pessoais a qualquer momento.

O programa Tackography gera um mapa com as conexões e as respectivas agências coletadoras.

A professora Fernanda falou de como agências coletadoras dos dados exercem influância sobre a atenção e o comportamento do internauta. Os dados são captados sutilmente, sem violar a privacidade, com a proposta de adquirir registros que personalizem cada vez mais os resultados das nossas buscas e podem ser (mas não são), tão neutros quanto prometem. Através do cruzamento de informações que são adquiridas é possível inferir qual seria o comportamento do individuo diante de determinada situação. A pesquisadora cita o feed de notícias do Facebook como exemplo. Este obedece tal perspectiva e oferece o que coletou do perfil projetado do usuário.

lightbeam
Lightbeam oferece o serviço de monitoramento pelo próprio usuário dos seus rastros.

Quando fazemos uma busca por uma palavra chave, no Google por exemplo, os resultados não têm apenas caráter aleatório. A professora citou uma pesquisa sobre como mulheres são menos expostas a propagandas de emprego com alta remuneração. Por isso a mediação não tem neutralidade, em “um cenário contemporâneo onde os dados são a grande moeda do capitalismo na internet” afirma. Com a alegação de ser preditiva, ou seja, considerando o comportamento do usuário prever sua próxima ação, as agências de mediação de dados se revelam performativas, tornando efetivo o cenário que ela prevê. Sendo assim os rastros implicam não só o controle do passado e sim a indução de um comportamento futuro.

Sandra Regina Sanches Ribas

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