SBPC 2017

Internacionalização da pós-graduação em educação: a cooperação sul-sul

No dia 21 de julho, durante a 69ª Reunião Anual da SBPC, foi realizada a mesa redonda “Internacionalização da pós-graduação em educação: a cooperação sul-sul”, coordenada por Maria de Fátima Cardoso Gomes (UFMG), contou com a participação de Romualdo Portela de Oliveira (USP) e Gilberto Icle (UFRGS). Os professores destacaram que o intercâmbio entre as instituições acadêmicas latino-americanas é crucial para a inovação social, repensando, inclusive, as práticas e sentidos a ela relacionados.

SBPC 2017

A educação nos novos intérpretes do Brasil

O professor Marcos Cezar de Freitas (UNIFESP) realizou durante 69ª Reunião Anual da SBPC a conferência “A educação nos novos intérpretes do Brasil”. O professor realizou uma reflexão sobre o tema educação nas obras de autores como, Alberto Guerreiro Ramos e Álvaro Vieira Pinto, que direta ou indiretamente, foram reconhecidos como interpretes do Brasil.
 
SBPC 2017

Rastros Digitais: passos por uma paisagem desconhecida

Na conferência Rastros Digitais e Vigilância nas Redes apresentada na  69ª Reunião Anual da SBPC , Fernanda Glória Bruno, Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esclareceu sobre a vigilância na internet e o que isso pode implicar na privacidade do indivíduo, mas principalmente o quanto isso tem modelado nossas escolhas inconscientemente.

Hoje a internet é um grande território onde a memória que se constrói é extraordinariamente diversa, complexa e dinamicamente atualizada, isso se deve ao fato de que “toda ação gera um rastro”. Diferente das ações que se dão no ambiente físico e também geram rastros, o ambiente digital tem um comportamento próprio com duração, materialidade e caminhos distintos de recuperação. Podemos deixar rastros conscientes, como no caso de uma publicação, mas inconscientemente também é possível ser rastreado, por exemplo, através da entrada em uma página que nos fornece cookies e pode não associar necessariamente à pessoa que está navegando, mas com certeza ao endereço de IP  da máquina que ela está utilizando.

Todas as ações são decodificadas e armazenadas em bancos de dados que, viram estatística, retornam em forma de personalização dos resultados nossas pesquisas nos buscadores. Significa que ao percorrer páginas, emitir opiniões, interagir das mais variadas formas, imprimimos no nosso rastro uma identidade específica que é o nosso estilo, esse irá ditar as opções mais personalizadas dos resultados para as perguntas que fizermos em seguida.

Existem grupos preocupados com o destino das informações coletadas pelos rastreadores. No aplicativo Trackography é possível mapear dentro da página visitada quantos e quais os rastreadores estão presentes e para onde levam suas informações. O Lightbeam é uma extensão para o navegador criado com apoio da Ford fundation e Emily Carr University of Art + Design com o intuito deixar visível ao internauta os rastros que ele imprime, quem o acompanha e quais rastreadores continuam lhe acompanhando quando muda de página. Essa iniciativa permite resetar ou salvar os dados pessoais a qualquer momento.

O programa Tackography gera um mapa com as conexões e as respectivas agências coletadoras.

A professora Fernanda falou de como agências coletadoras dos dados exercem influância sobre a atenção e o comportamento do internauta. Os dados são captados sutilmente, sem violar a privacidade, com a proposta de adquirir registros que personalizem cada vez mais os resultados das nossas buscas e podem ser (mas não são), tão neutros quanto prometem. Através do cruzamento de informações que são adquiridas é possível inferir qual seria o comportamento do individuo diante de determinada situação. A pesquisadora cita o feed de notícias do Facebook como exemplo. Este obedece tal perspectiva e oferece o que coletou do perfil projetado do usuário.

lightbeam
Lightbeam oferece o serviço de monitoramento pelo próprio usuário dos seus rastros.

Quando fazemos uma busca por uma palavra chave, no Google por exemplo, os resultados não têm apenas caráter aleatório. A professora citou uma pesquisa sobre como mulheres são menos expostas a propagandas de emprego com alta remuneração. Por isso a mediação não tem neutralidade, em “um cenário contemporâneo onde os dados são a grande moeda do capitalismo na internet” afirma. Com a alegação de ser preditiva, ou seja, considerando o comportamento do usuário prever sua próxima ação, as agências de mediação de dados se revelam performativas, tornando efetivo o cenário que ela prevê. Sendo assim os rastros implicam não só o controle do passado e sim a indução de um comportamento futuro.

Sandra Regina Sanches Ribas

SBPC 2017

A epidemia (de diagnósticos) de transtornos mentais

No último dia 21, a professora doutora Maria Aparecida Affonso Moyses apresentou a conferência “A epidemia de transtornos mentais” durante a 69ª Reunião Anual da SBPC. A professora, que leciona Pediatria na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, é militante do movimento DESPATOLOGIZA, que questiona a medicalização da vida, e foi essa a abordagem da conferência.

Segundo a professora, o número de diagnósticos e de categorias psicopatológicas vem aumentando exponencialmente desde os anos 90. Como exemplo, ela citou o transtorno bipolar cujo número de diagnósticos aumentou 40%. “Aqui acho que precisamos fazer uns parênteses: o transtorno bipolar é o sucessor da PMD, ou psicose maníaco-depressiva. Houve essa mudança na transgressão do século. Até os anos 90, havia esse conhecimento inquestionável em pediatria e psiquiatria infantil de que crianças não tinham quadros de PMD e que, em adolescentes, era uma situação bastante rara. […] Hoje, o índice de diagnósticos é de quase 10% entre crianças e adolescentes. Então, a PMD foi transformada em transtorno bipolar e aí eu acho que tem alguns fatores que ajudam a gente a entender. O primeiro é a mudança de critérios de diagnóstico, que se tornaram muito mais frouxos e é muito difícil qualquer um de nós não se encaixar nos critérios” declarou a pesquisadora que também abordou a problemática “glamourização” de transtornos mentais. “Além disso tem um outro fator, e eu não estou desqualificando as pessoas que têm esse diagnóstico, mas é o seguinte:vocês já ouviram alguém dizer ‘eu sou PMD’ ou ‘eu sou psicótico’? E ‘eu sou bipolar’? Tem um certo glamour, né?”.

Aliado aos altos índices de diagnósticos está o elevado número das vendas e distribuição de medicamentos para tratar psicopatologias. Para a professora Maria Moyses isso “acaba com o conceito de normalidade estatística”, que é vital para a medicina. Assim, segundo ela, é impossível estabelecer políticas públicas para algo que acomete, por exemplo, 40% da população estadunidense.

Por isso, a professora Maria Moyses disse que um título mais apropriado para a exposição talvez fosse “A epidemia de diagnósticos de transtornos mentais”. Além da alteração de normas de diagnósticos, como a citada acima sobre a PMD, também vivemos a criação de novas enfermidades. Ela cita o livro Selling Sickness, de Alan Cassels e Ray Moynihan, no qual os autores expõem como as grandes indústrias farmacêuticas incentivam e financiam os diagnósticos “facilitados” e a criação de doenças. Parte do conteúdo do livro é composto por atas de reuniões do alto escalão dessas indústrias, divulgados por pessoas que a professora chamou de “infiltrados”. Muitas das atas e declarações que constam no livro são justamente sobre a criação de enfermidades e dos medicamentos para “tratá-las”. A professora ainda falou do papel das equipes de marketing – que são parte relevante da indústria farmacêutica – e seu trabalho ao divulgar doenças e convencer as pessoas de que elas sofrem daquilo e precisam de determinada droga, vendida por eles com algum nome atrativo e simples o bastante para você não esquecê-lo.

Sobre essa criação de psicopatologias, a professora apresentou os números do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM, desde sua primeira formulação até à última. É de se imaginar que avanços na Medicina trouxessem o reconhecimento de novas enfermidades, mas os aumentos são alarmantes: em sua primeira edição, de 1952, o manual trazia 106 categorias de psicopatologias; a segunda edição, de 1968, já tinha 182; foram saltos gradativos até chegar à última edição, publicada em 2013, que tem mais de 300 transtornos listados. Outra grande crítica da professora ao DSM é como ele tem sido usado por estudantes: muitos só aprendem psicopatologia no manual, ignorando o estudo das enfermidades para além do livro.

Como professora e médica, Maria Moyses pergunta: “quando uma criança pode sonhar, viver no ‘mundo da lua’, e lembrando que quem está no mundo da lua está prestando muita atenção por lá? Quanto um jovem pode fumar sem risco de ser um novo bicho-de-sete-cabeças? Nós estamos voltando com as chamadas ‘comunidades terapêuticas’, […] que de comunidades e terapêuticas não têm nada. Agora, eu não sei se vocês conhecem esse transtorno, que saiu no DSM-V: Transtorno Disruptivo de Descontrole de Humor. Sabem o que é? É quando a criança faz muita birra”. Sobre esse transtorno, cuja definição causou risos na plateia do auditório, a professora continuou: “Uma criança de dois, três anos, ela sai do consultório com esse diagnóstico e ela é tratada com antipsicóticos. O que estamos fazendo com a nossa infância?”

Professora Maria Aparecisa Affonso Moyses discute o numero elevado de diagnósticos de transtornos mentais. Foto: Maria G. Lara

A conferência foi um convite à reflexão sobre o nosso desespero em dar nome a qualquer coisa que nos pareça minimamente errada. Crianças medicadas com antipsicóticos por fazer birra e com estimulantes por não gostarem de estudar se apresentam como mais um sintoma de uma sociedade hipocondríaca que busca diagnósticos para traços humanos. A medicalização da vida é um problema que muito gera resistência à discussão, já que muitas pessoas sentem-se aliviadas ao ouvir que seu ‘frio na barriga’ para falar em público trata-se de uma ansiedade social, que pode ser medicada e controlada. Pessoas se prendem emocionalmente a placebos que, ao mesmo tempo que não curam doença alguma, têm inúmeros riscos à saúde e à vida do usuário – arritmia, hipertensão e tendência ao suicídio são possíveis efeitos colaterais listados em grande parte das bulas de drogas para tratamento de psicopatologias. E é nisso que indústrias têm se pautado para crescer mais e mais, vender cada vez mais remédios dos quais não precisamos mas dos quais nos tornamos dependentes.

Ao fim da conferência, a professora fala sobre a luta pela despatologização. “Temos coisas que fazer sim, do mesmo modo como gritamos ‘diretas já’ devemos atuar nesse campo também. São todos mesmos dispositivos do mesmo processo. Mas e aí, como a gente despatologiza, como a gente pensa em construir vida menos patologizada e que os processos da vida não sejam transformados em doença? Eu acho que temos que pensar em construir solos ético-políticos, e é por isso que eu falei que são os mesmos dispositivos, é o mesmo processo que barra e silencia questionamentos. E pensar que são as crianças e os jovens que recebem metilfenidato [estimulante contido na Ritalina] e risperidona [antipsicótico forte], são os que sonham com mundos diferentes, os que questionam o mundo atual. Se a gente vai pra um mundo zombie-like em que os questionadores e os sonhadores são calados, é como diz o psicanalista uruguaio Victor Guerra, estamos fazendo genocídio duplo: estamos impedido futuros diferentes.”

Maria G. Lara

SBPC 2017

A ciência na escola

A mesa redonda “A percepção pública da ciência no ambiente escolar” durante a 69ª Reunião Anual da SBPC reuniu os professores Antonio José Silva Oliveira (UFMA) e Guilherme Lima (UFOP) e a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho (Labjor- Unicamp). Os pesquisadores apresentaram estudos realizados com estudantes e educadores que observam a relação desses atores com a ciência no ambiente escolar.

O professor Guilherme Lima apresentou os resultados de uma pesquisa realizada com alunos do Ensino Técnico à respeito da utilidade da Física em seu dia a dia e no curso. Já a pesquisadora Márcia Azevedo apresentou a pesquisa realizada pelo Labjor (UNICAMP) com professores da educação básica. O estudo observa a percepção dos educadores a respeito da ciência. Por fim o professor Antônio José Silva Oliveira (UFMA) apresentou o projeto Ciência Móvel que circula pelo estado do Maranhão com um laboratório móvel.

Entrevistas, SBPC 2017

O valor da ciência indígena – Entrevista com Gersen Baniwa (UFAM)

A ciência e o conhecimento produzido por indígenas precisa encontrar mais caminhos para um diálogo simétrico com a ciência não indígena. O professor Gersen Baniwa participou da mesa redonda “A democratização da produção do conhecimento: sábios, intelectuais e Militantes” na 69ª Reunião Anual da SBPC.

 

Yolanda Assunção

SBPC 2017

Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas: o Brasil e a América Latina

Na terça-feira, 18 de julho, os professores Ivan da Costa Marques (UFRJ) e Luciano Mendes de Faria Filho (UFMG) reuniram-se em mesa-redonda coordenada pelo professor Carlos Henrique de Carvalho (UFU) para discutir o tema “Diplomacia acadêmico-científico brasileira e suas relações com as ciências humanas e sociais aplicadas”.

O professor Luciano Mendes destacou a importância da temática na discussão sobre a internacionalização das pesquisas em ciências humanas, sociais e sociais aplicadas (CHSSA). O professor frisou a importância de se considerar o MERCOSUL como um bloco com inúmeras possibilidades de trocas e cooperações científicas e culturais, não apenas como um bloco econômico, como costuma ser visto. O professor Luciano falou ainda sobre o “déficit” de jovens entre 18 e 24 anos que estão no ensino superior no Brasil, que coloca nosso país numa das piores posições da América Latina – sendo que, segundo o professor, só estão piores que o Brasil países como Haiti, que enfrentam problemas sociais e políticos muito maiores que os nossos.

Já o professor Ivan Marques abordou a valorização das ciências exatas e da natureza em detrimento das ciências humanas. Ele disse que, ao se considerar os campos acadêmicos, “não se considera que a Sociologia, a História ou a Antropologia sejam ciências propriamente. Ciência é ciência química, matemática, são as chamadas ‘ciências duras’, e são também, no nosso ambiente, quem está no topo da hierarquia quando se discute verbas no CNPq ou na CAPES, são os físicos e os matemáticos que falam mais alto”. Ele continuou dizendo que, nos países vizinhos a nós, esse problema se faz menos presente, uma vez que nestes as comunidades científicas de CHSSA são maiores, mais instrumentalizadas e mais representadas em seus respectivos governos.

Os participantes da mesa também discutiram a desvalorização da cultura e da humanidade como objetos de estudos em comparação à tecnologia. Foi citado o programa Ciência Sem Fronteiras, que não possuía abertura para estudantes de CHSSA estudarem suas respectivas ciências em outras sociedades. O debate seguiu abordando temas como a separação epistemológica entre natureza e humanidade/cultura, o Programa Ciência Sem Fronteiras (CSF) e a necessidade de se aumentar o enfoque e dar mais visibilidade às demandas das CHSSA.

Maria G. Lara

Reportagens, SBPC 2017

Mulheres na ciência

Um dos temas discutidos na 69ª Reunião da SBPC foi a equidade de gênero na ciência, principalmente na mesa-redonda “Mulheres e Sociedade”. Mas porque estudar e discutir gênero e ciência? Porque isso é relevante?

Primeiro porque é uma questão de direito. As mulheres são parte da sociedade e tem direito a ter uma igualdade de participação no sistema de ciência e tecnologia de seus países. Segundo porque o país perde. No Brasil, por exemplo, as mulheres representam cerca de 51,6% da população, ou seja, a exclusão das mulheres da ciência implica na perda de metade da capacidade produtiva e de desenvolvimento da ciência no país.

Terceiro por questões sociais. As mulheres desenvolvem papéis e atividades diferenciados dos homens de maneira geral e é importante que se tenha uma perspectiva dos dois sexos. Alice Rangel de Paiva Abreu (UFRJ), presente na mesa “Mulheres e Sociedade” afirma que a “ciência com mais mulheres é uma ciência melhor. Os cientistas arregalam um pouco os olhos quando eu digo isso, evidentemente não é porque as mulheres são intrinsecamente melhores pesquisadoras que os homens, mas a questão da diversidade e da pluralidade é uma questão que influencia também a ciência. Você ter mais cabeças pensando de forma diferente traz de fato resultados melhores.”

A professora Marcia Cristina Bernardes Barbosa (UFRGS), também presente na mesa, apontou alguns mitos sobre a escassez das mulheres na ciência que dificultam a discussão e causam essa barreira da entrada e a dificuldade de permanência. Primeiro ela fala em estereótipos. O estereótipo do cientista é aquele do louco, cabelos em pé, de jaleco, óculos enormes… e homem. É assim representado por filmes, novelas, séries, livros, propagandas, etc, e nós assim internalizamos. E quando, raras vezes, é uma cientista mulher, é aquela figura solitária, descuidada, masculinizada. Ela aponta também a pré definição de papéis dos sexos imposta pela sociedade: os homens são inteligentes, chefes, proprietários; as mulheres são agradáveis, benevolentes, mediadoras de conflito. “Nós estamos condenando as nossas crianças para que os meninos sejam inteligentes e as meninas sejam simpáticas. Teremos meninos inteligentes antipáticos e meninas simpáticas burras”, afirma a professora.

Outro mito é o de que a mulher não quer ir para a ciência. A professora Marcia contou a história de Hipátiade Alexandria, uma das primeiras pessoas a dizer que as órbitas eram elípticas (o que causava uma quebra religiosa fundamental). O governo quis obrigá-la a abandonar suas pesquisas e negar suas descobertas e ela foi morta por não negar o que ela acreditava, por não negar seu direito de fazer ciência, e esse é apenas um dos muitos exemplos de mulheres que enfrentaram governos e morreram pelo mesmo motivo. A professora ilustrou com esse exemplo, o fato de não ser as mulheres que não querem ir para a ciência, é a ciência que nega a presença da mulher. Quando ela tenta entrar, é barrada, sua permanência é dificultada e sua autoridade é negada. E isso vem acontecendo há muito tempo.

E assim, com a junção de diversos fatores, a ausência das mulheres na ciência é perpetuada. É um “ciclo vicioso”, elas não conseguem acesso, os colegas homens ocupam cargos superiores na hierarquia veem que não há muitas mulheres e por consequência não escolhem bolsistas mulheres, as mulheres que ainda não entraram também não querem seguir esse caminho pois não há modelos de sucesso conhecidos. Esse preconceito é perpetuado pelo sistema e, segundo a professora Marcia, “a única maneira de destrancar o que você aprendeu do sistema é ação afirmativa, é contar pra eles: você vai ter também que escolher mulher”.

A pesquisadora Alice Rangel cita Londa Schiebinger, professora de Stanford que dirige um projeto junto com a UE chamado “Gender Inovations”. Schiebinger fala que para se entender a evolução dos estudos de gêneros é preciso ver que se começou pensando em fazer três coisas: consertar os números, consertar as instituições e consertar o conhecimento em si.

Para consertar os números, é preciso que existam pesquisas, indicadores científicos agregados ao sexo. Esta falta de dados resulta na manutenção dos preconceitos sobre a presença da mulher na ciência, tendo em vista que não se tem provas para refutá-los. Isso tem mudado com pesquisas sob a lente de gênero, principalmente na UE, que nos dá uma visão muito clara do que realmente acontece.

O Brasil está em nível excepcional porque é um dos três países onde as mulheres são maioria entre titulados com doutorado. Também são maioria na graduação, tanto em ingresso quanto em permanência. Mas apesar disso há alguns pontos ao longo da carreira cientifica onde a queda no numero de mulheres é relevante: da graduação para o mestrado, depois para o doutorado, e depois na progressão da carreira. A professora Alice Rangel afirma que “quando se olha a hierarquia do sistema, a gente percebe que apesar de um grande número de mulheres na base, à medida em que a hierarquia sobe, elas desaparecem. E isso é muito bem caracterizado quando se vê as bolsas do país”. Pelos dados do CNPq, as mulheres são maioria nas bolsas de amplo aspecto (iniciação cientifica, mestrado e doutorado). Mas quando se olha para as bolsas de pesquisa isso muda. “Eu tenho algumas hipóteses sobre isso. Porque todas as outras bolsas da CAPES e CNPq são distribuídas de maneira descentralizada. São os cursos que escolhem os seus bolsistas através do exame de entrada, as bolsas de iniciação cientifica são os orientadores que escolhem. A bolsa de pesquisa do CNPq, que é a bolsa de maior prestigio, é dada por um comitê nacional centralizado no órgão” afirma Alice.

Então são realmente as mulheres que não são qualificadas? Um argumento muito usado é o de que é questão de tempo para que as mulheres possam se qualificar e começar a ter acesso nesse nível maior da hierarquia, mas segundo pesquisas apresentadas pela Prof. Alice Rangel, isso é um mito. Apesar das mulheres terem uma porcentagem de participação muito grande nas publicações científica, um dos grandes indicadores de excelência da qualificação, o gráfico é uma linha reta, o seu lugar na hierarquia não muda.

Entra aí a questão de se consertar as instituições. Se os números mostram que as mulheres estão qualificadas, então porque não ocupam os lugares que poderiam e deveriam ocupar? Para Alice Rangel, “quanto mais se estuda a questão de gênero e ciência, mais se tem clara noção de que ao longo da carreira científica há vários processos sociais, de incorporação, de redes, de menores salários, de dificuldade em conseguir financiamento, uma série de processos sociais e culturais internos das instituições que baixam as mulheres.”

Sobre consertar o conhecimento em si a pesquisadora lembra que “a pesquisa científica hoje é muito diferente da pesquisa cientifica feita há 50 anos atrás. Ela é mais global, você tem atores novos, você tem desafios científicos muito mais complexos que exigem novos conhecimentos e abordagens, principalmente interdisciplinares”. E como fazer isso? Alice defende a definição de uma agenda de pesquisa onde a participação de homens e mulheres tenha uma equidade real; um processo de avaliação que seja extremamente eficaz; financiamento equilibrado; transparência e responsabilidade nos mecanismos de seleção e promoção com equidade de gênero; e a visibilidade à modelos de sucesso. “É preciso mostrar que existem mulheres qualificadas, que tiveram uma carreira promissora, elas tem que aparecer como visíveis e também continuar essa luta por indicadores e estatísticas confiáveis. Tudo isso sob uma lente de gênero, eu acho que a gente daria alguns passos para tentar resolver alguns dos desafios que ainda temos pela frente” afirma Alice Rangel.

Mas tudo isso precisa ser visto de acordo com a atual conjuntura do país. Simone de Beauvoir disse que “nos momentos de crise são os jovens e mulheres que sofrem as piores perdas”. A professora Estela Maria Motta (UFBA) chamou atenção para a responsabilidade que temos de discutir o tema principalmente “no momento de uma grave crise política no país que tem significado não apenas a ameaça às conquistas que a gente vem obtendo ao longo dos anos, mas a efetiva ação de destruição de muitas das coisas que a gente foi acumulando e que foram insuficientes para o grau de desigualdade sociais que a gente tem no país”. Não existe equidade de gênero sem democracia.

Ligia Matini

SBPC 2017

Desafios das publicações em humanidades são debatidos em conferência com editores

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Quantas são as publicações em humanidades, quais são elas e onde estão foram algumas questões formuladas durante a conferência “Desafios e Perspectivas para as Publicações nas Humanidades,” realizada dia 21 de julho durante a 69ª Reunião Anual da SPBC. Esta mesa, coordenada pela professora Sandra Lúcia Selles (UFF), atual diretora da Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec), reuniu editores de periódicos científicos da área.

O professor Sérgio Cirino (UFMG), coordenador do portal de periódicos da universidade, afirmou que a denominação ‘humanidades’ é extensa, cobrindo “as áreas de ciências humanas, ciências sociais e sociais aplicadas”. Além dessa abrangência, as publicações debatem-se com dificuldades que ele classificou como ‘domésticas’ e ‘gerais’. Uma questão geral de grande relevância é o desconhecimento da quantidade e  da localização das revistas, o que denota necessidade urgente de mapeamento. “A gestão do fluxo de informação e a real participação dos membros do conselho editorial são exemplos de questões domésticas ainda não equacionadas”, afirmou.

Cirino demonstrou que, segundo pesquisa realizada em 2013 pela Anped, 80% dos periódicos da área de Educação, por exemplo, são publicados nas regiões sul e sudeste do Brasil, “evidenciando a desigualdade sócio-econômica”. O docente afirmou que o desconhecimento a respeito do universo de publicações de humanidades dificulta a formulação de políticas de fomento e apoio editorial.

Ao concordar com o colega sobre a falta de apoio institucional à atividade de editoração, professora Rosária Justi (UFMG) expôs a situação específica da área de educação em Ciências, na qual é editora de publicação nacional e internacional. “Trata-se de uma área que se estruturou recentemente, a pouco mais de 20 anos, de modo que os pesquisadores ainda estão em fase de formação ou tem pouca experiência com publicações”, afirmou. Ela ressaltou, também, a necessidade da formação de pareceristas, pois a contribuição deles tem função formativa e de incremento das áreas de pesquisa.

Justi demonstrou preocupação com o plágio e o auto-plágio, segundo ela, “cada vez mais frequentes”. A exigência por produtividade, o acesso à tecnologia e até o desconhecimento de implicações éticas são, para ela, as razões pelas quais esses procedimentos vêm aumentando. “Esse fato só confirma a necessidade de revisores bem formados”, concluiu.

Isabel Martins, professora da UFRJ e editora da revista eletrônica Ciência em Tela, fez um relato de experiência sobre a publicação, que é dirigida aos professores da educação básica. “Reconhecer que o conhecimento em educação também é produzido na escola, e não somente nas universidades, é um deslocamento do olhar que tentamos exercitar”. A docente finalizou sua fala afirmando que “a pesquisa em Educação é relacional: os movimentos de investigação e de intervenção são complementares”.

Claudia Fonseca